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Saúde Emocional e Ansiedade

A saúde emocional é um tema cada vez mais em evidência nos dias de hoje. Trata-se do resgate da função do corpo e suas manifestações emocionais na qualidade de vida. Passamos longos anos falando da razão, da importância do pensamento positivo e do intelecto no direcionamento da conduta saudável. Fizemos do intelectual lógico o paradigma do homem produtivo, do homem que sabe decidir colocando de lado suas emoções, não se deixando influenciar por suas paixões, um “Mr. Spock” de “Jornada nas Estrelas”. Com tudo isso acabamos por negar a própria importância de nossas emoções no saber fazer, no saber decidir e no saber viver.
Queremos destacar a importância da ansiedade para os processos decisórios. Este sentimento que nos move, que nos desperta e que também nos incomoda, por muito tempo, desde Platão, foi visto como um fator de interferência a ser removido pela razão. Um ruído cujo único propósito seria o de interromper as operações intelectuais voltadas para a realização da virtude.
E o homem acreditou realmente que remover a ansiedade o libertaria para o pensamento produtivo. E desenvolveu muitas vezes um verdadeiro pavor de sentir, como o atesta a Síndrome do Pânico, doença tão presente em nosso século, na qual o indivíduo tem como objeto de seu medo qualquer indício de ansiedade ou de angústia, que nele suscita a idéia de morte ou de uma perda de controle catastrófica. Como o atesta também o surto atual de alcoolismo e dependência de drogas, onde as pessoas adoecidas não suportam sentir qualquer ansiedade, ou até mesmo outros sentimentos, sem que com isso precisem se anestesiar, se livrar imediatamente de seus incômodos.
Mas o que é a ansiedade? É o medo sem objeto. É um estado de ameaça em que o objeto ameaçador não está totalmente claro para o indivíduo, ou este não está totalmente seguro quanto à sua capacidade para lidar com o mesmo. É também o motor de nosso operar sobre um mundo que não está totalmente evidente e conhecido para nós. Sobre um mundo que nós não sentimos como integralmente em nosso domínio. Nesse âmbito, a ansiedade é um sentimento normal e saudável, necessário para que tomemos decisões construtivas, para que sejamos criativos em toda nossa potencialidade. Mas o que o homem criou para lidar com a ansiedade? A falsa objetividade. Criou-se a fantasia de que o homem objetivo era aquele de decisões rápidas e racionais. E o homem, ao invés de aprender a lidar com seu corpo e seus sentimentos, passou a tentar se livrar, o mais rapidamente possível, de sua ansiedade, através da falsa objetividade, da impulsividade, da decisão impensada, visando se livrar do desconforto, muito mais do que reconhecê-lo e entendê-lo na construção da melhor trajetória a seguir.
O que estamos aqui destacando é a importância de se rever esta posição, tão divulgada pelo senso comum, pelas empresas e pela mídia, a respeito do paradigma do homem saudável. Um paradigma aprisionante e responsável pela inabilidade com que o homem da sociedade moderna ocidental lida com seu corpo e suas manifestações emocionais. Trata-se da inversão de nossa postura frente ao que nosso corpo manifesta. Ao invés de livrar-se da ansiedade, o homem deve, antes de tudo, suportar e reconhecer suas manifestações, não como um sinal de desarticulação, mas como um sinal de que sua presença precisa ser entendida e integrada ao funcionamento da própria razão. Uma razão não mais desvinculada do corpo, intelectualizada, mas atrelada ao seu funcionamento, corporificada.
Mas como se atingir este intento? É preciso, antes de mais nada, que nos permitamos sentir. Que possamos permanecer com o desconforto pelo tempo necessário ao seu reconhecimento e sua elaboração. Somente o exercício continuado, em que o homem possa entrar em contacto com seu corpo e com suas manifestações, aprendendo a regular seus excessos sem que com isso se conduza à negação de seus sentimentos, permitirá que num processo gradual o homem vivencie na prática o que aqui se revela por estas palavras. Muitas vezes este exercício se conduzirá simplesmente num modo de vida habitual, outras vezes a psicoterapia será o espaço ideal e em outras a dinâmica de grupo, seja na empresa ou noutra instituição qualquer, se apresentará como o contexto ótimo para esta prática.

Autores

Maurício Canton Bastos

Psicoterapeuta. Mestre em Psicologia Cognitiva pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ).
Doutor em Psicologia Social e da Personalidade pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Diretor técnico do CPAF-RJ. Professor e Supervisor em Terapia Cognitivo-Comportamental.
Terapeuta Certificado pela FBTC (Federação Brasileira de Terapias Cognitivas).

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