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Terapia Cognitivo-Comportamental e Sistemas Dinâmicos

No processo evolutivo das TCCs, muitas foram as propostas desde os primeiros modelos de terapia: Terapia Cognitiva, Terapia Racional-Emotiva-Comportamental, Terapia de Solução de Problemas, Terapia do Esquema, Terapia de Aceitação e Compromisso, Terapia Comportamental Dialética, Terapia Cognitiva analítica, Terapia Cognitiva baseada no Mindfulness, Terapia Cognitiva Interpessoal Focada na Emoção, Psicologia Positiva Aplicada à Terapia etc. Desde o início, o rigor com o tratamento científico de protocolos de atendimento, com ensaios controlados e teste de hipóteses, norteou o desenvolvimentos das TCCs e encontrou sinergia com o paradigma dominante entre os modelos de intervenção na saúde: os tratamentos baseados em evidências, ou seja, aqueles em que há demonstração da eficácia e efetividade de procedimentos específicos para os transtornos mentais (Emmelkamp, Ehring e Powers, 2010). Gradativamente, o modelo de processamento de informação deixou de representar um paradigma unificador das abordagens em TCC. A emoção recuperou posição de destaque tanto como componente integrado a esquemas cognitivo-afetivos, como variável importante no manejo da relação terapêutica. Na fase mais recente deste movimento, denominado terceira geração (ou terceira onda) das TCCs, destacam-se a ênfase na contextualização do comportamento e a aposta na prática do mindfulness, conceito que se origina em práticas orientais de meditação e que envolve a atenção plena, ou seja, o foco atencional voltado, intencionalmente e sem julgamento, para o momento atual, com aceitação incondicional e legitimadora de sentimentos e sensações negativos.

Frente à velocidade com que se disseminam as diferentes propostas de intervenção fundamentadas em protocolos validados experimentalmente, mas que apenas se integram de maneira eclética e não teórica, permanece a busca de uma estrutura metateórica que ajude a descrever e compreender o comportamento e ao mesmo tempo sirva de paradigma organizador dos diferentes modelos de intervenção em TCC.

O ser humano é um sistema complexo constituído de inúmeros componentes que interagem entre si em diferentes níveis de organização: moléculas, células, tecidos, órgãos, sistemas com diferentes funções, cognição, emoção, motivação, comportamento, humor, personalidade. Tais níveis interagem de um modo em que estão fundidos uns aos outros em relações sempre em transformação, imersos em um meio físico e social. Um modelo que tente dar conta desta complexidade deve levar em conta a dinâmica de interações entre estes diferentes níveis de análise.

O paradigma dos sistemas dinâmicos se revela como uma abordagem promissora como “framework” de organização e compreensão para as diferentes perspectivas que se complementam na abordagem cognitivo-comportamental. Um sistema dinâmico abrange transformações que ocorrem ao longo do historial de interações dos diferentes elementos de um sistema e entre os diferentes níveis de análise deste sistema. Padrões emergem ao longo da história desses sistemas, em escalas de segundos, minutos, horas, dias, meses ou anos: pensamentos e sentimentos se fundem em experiências que se repetem no tempo, a personalidade se revela em padrões de modos de ser e tendências a desenvolver relações repetitivas com o mundo.

O estudo dos sistemas dinâmicos (Thelen e Smith, 2006) descreve a auto-organização como propriedade subjacente à emergência de novas formas ou padrões. Embora uma grande variedade de padrões seja possível de resultar teoricamente da interação das partes componentes de um sistema complexo, o sistema aberto e dinâmico revela somente um número limitado de padrões. O sistema “prefere” somente alguns modos de comportamento: tais modos são referidos como estados “atratores” do sistema. Em termos dinâmicos, o sistema prefere uma certa localização em seu espaço de estados possíveis, e quando deslocado deste estado, tende a retornar para ele.

Impossível de se não se ver nesta descrição sua aplicabilidade ao comportamento humano como objeto da Psicologia Clínica. A psicoterapia lida com sistemas dinâmicos, que mudam e se desenvolvem no tempo. As formas e padrões que emergem no comportamento humano ao longo de seu desenvolvimento podem sofrer mudanças no tempo e no espaço: múltiplos padrões estáveis, descontinuidades, rápidas mudanças de forma, mudanças aparentemente aleatórias, mas determinísticas. A tudo isto, o terapeuta tenta entender e oferecer ajuda.

As tentativas tradicionalmente ancoradas na ciência moderna ocidental concentraram-se, preferencialmente, em modelos lineares de causalidade: a cognição causa a emoção, as consequências ambientais moldam o comportamento. A proliferação de modelos cognitivo-comportamentais dos últimos anos nos mostram, contudo, que a ordem dos fatores não é assim tão estática, e que diferentes caminhos podem conduzir a resultados válidos. A escolha de quais fatores são hegemônicos na mudança de comportamento de um sistema complexo depende da dinâmica de relações internas e externas deste sistema.

O ser humano parece atraído a padrões construídos ao longo da sua história e ao mesmo tempo parece suscetível a mudanças a partir de forças contextuais. A análise da dinâmica de interações internas e externas ao sistema nos revela a emergência de novos atratores (padrões) conforme parâmetros chaves são modificados. Assim como a elevação da temperatura é um parâmetro fundamental para a mudança de fase da água, com a emergência de um novo padrão de interações entre as moléculas componentes, também podemos encontrar parâmetros de controle que nos ajudam a entender mudanças de padrão no comportamento humano. Contudo, a analogia é insuficiente se levarmos em consideração as diferenças de complexidade. Bastará incluir mais uma variável no sistema da água para percebermos a dificuldade de se estabelecer regras rígidas. Assim também, o contexto dos inúmeros componentes do sistema humano em contínua interação e mudança nos mostra uma realidade com diferentes níveis de análise: cognitivo, comportamental, emocional e ambiental. Encontrar a combinatória das diferentes intervenções é um trabalho que dependerá de análise funcional profunda do comportamento e de sua história.

Por que o paradigma dos Sistemas Dinâmicos?

Os padrões formados nos sistemas dinâmicos não são simples e estáticos. As formas e padrões que emergem podem sofrer mudanças no tempo e no espaço: múltiplos padrões estáveis, descontinuidades, rápidas mudanças de forma, mudanças aparentemente randômicas, mas determinísticas. E toda essa sequência ocorre sem uma pré-especificação: os padrões se auto-organizam (Thelen e Smith, 2006).

Atratores

Como vimos acima, uma propriedade dos Sistemas Dinâmicos é a auto-organização do sistema em padrões preferenciais de forma e funcionamento. Embora uma grande variedade de padrões seja possível de resultar teoricamente da interação das partes componentes de um sistema complexo, o sistema aberto e dinâmico revela somente um número limitado de padrões. O sistema “prefere” somente alguns modos de comportamento: tais modos são referidos como estados “atratores” do sistema. Em termos dinâmicos, o sistema prefere uma certa localização em seu espaço de estados ou espaço de fases, e quando deslocado deste estado, tende a retornar para ele.

O espaço de estados de um sistema dinâmico é um construto abstrato de um espaço de um número qualquer de dimensões cujas coordenadas definem os estados possíveis da coletividade (parâmetro de ordem).

Um padrão em um sistema dinâmico é coerente devido à cooperação de seus componentes. Esta coerência é mantida apesar das flutuações internas do sistema e apesar de pressões externas pequenas. No entanto, a medida que os parâmetros do sistema ou as condições externas mudam, pode-se chegar a um ponto em que antigos padrões não mais alcançam coerência e estabilidade, de modo que o sistema encontra um novo padrão, ou seja, passa por uma mudança de fase não-linear, ou transição de fase.

O parâmetro para o qual a coletividade (parâmetro de ordem) é sensível, ou seja, que é capaz de mover o sistema para outro estado coletivo (atrator), chama-se parâmetro de controle. O parâmetro de controle pode ser um elemento externo ao sistema, como por exemplo o contexto dos relacionamentos em que o indivíduo se engaja quando muda de trabalho, ou pode ser específico ao sistema, como por exemplo a aprendizagem de uma nova habilidade como fator crítico para uma mudança de padrão.

Nem toda a mudança em um sistema é uma mudança de fase. Para alguns valores do parâmetro de controle, o sistema pode responder de uma maneira linear e contínua. Não linearidade é um efeito de limiar: uma pequena mudança no parâmetro de controle em um valor crítico resulta em uma mudança qualitativa. Parâmetros de controle (internos ou ambientais) ou experiências específicas levam a mudanças de fase através da ameaça à estabilidade do atrator corrente. Todos os sistemas complexos trazem dentro de si flutuações inerentes. Quando o sistema é coerente e os padrões são estáveis, estas flutuações estão restringidas. Entretanto, em valores críticos do parâmetro de controle, o sistema perde sua coerência e ruídos perturbam a variável coletiva. Em algum ponto, esse ruído sobrepuja a estabilidade do padrão cooperativo e o sistema entra em variabilidade aumentada com ausência de padrão. Entretanto, algumas vezes, a medida que o parâmetro de controle ultrapassa um valor crítico, o sistema pode se estabelecer em um novo modo diferente de coordenação (Thelen e Smith, 2006).

A noção de atrator é especialmente interessante para descrever padrões repetitivos, seja ao nível de sintomas cognitivo-afetivo-comportamentais, ao nível de padrões cognitivo-afetivos de traços de personalidade, oscilações de humor, ou padrões de relacionamento interpessoal. Em todos esses casos, a perspectiva dos Sistemas Dinâmicos oferece uma ferramenta descritiva e analítica para a identificação dos componentes em interação no sistema. A identificação dos parâmetros de controle que podem levar a uma nova coordenação dos elementos do sistema, ou seja, a um novo atrator, é o desafio a ser alcançado a partir das técnicas de intervenção cognitivo-comportamentais. O modelo dos Sistemas Dinâmicos oferece então uma perspectiva ateórica para pensar os sistemas humanos e decidir sobre quais parâmetros devemos investir na busca da mudança terapêutica.

Referencia

Emmelkamp, P. M. G., Ehring, T., Powers, M. B. (2010). Philosophy, Psychology, Causes, and Treatments of Mental Disorders. In: Kazantzis, N., Reinecke, M. A., Freeman, A. Cognitive and Behavioral Theories in Clinical Practice. p. 1-27. New York: The Guilford Press.

Pessoa, Luiz. (2013). The Cognitiive-Emotional Brain: from interactions to integration. The MIT Press. Cambridge.

Thelen, E. & Smith, L. B. (2006). Dynamic Systems Theories. In: Lerner, R. M. (Editor). Handbook of Child Psychology. Vol 1. 6a Ed. p. 258-312. New Jersey: John Wiley & Sons.

Autor

Maurício Canton Bastos

Psicoterapeuta. Mestre em Psicologia Cognitiva pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ).
Doutor em Psicologia Social e da Personalidade pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sócio e Diretor técnico do CPAF-RJ. Professor e Supervisor em Terapia

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