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Adicções e Vida Significativa

Quando penso em adicções, penso em padrões de busca de experiências que se apresentam de modo compulsivo e que se tornam centrais na vida da pessoa. A vida passa a ser organizada em torno dessas experiências, de modo que o trabalho, a vida social, a vida afetiva a vida pessoal passam a ser planejados em termos da priorização das experiências da adicção. A continuidade do processo adictivo leva a perda gradativa de investimento consistente nessas áreas importantes da vida. O processo construtivo precisa envolver direção e propósito para ser bem sucedido. Ele deve ser intrinsecamente valioso para quem o abraça. Não há como realizar construções de longo prazo sem envolvimento e engajamento, algo somente possível se fruto de uma escolha significativa para o indivíduo. Escolhas significativas envolvem uma permanência de rumo que sobrevive a intempéries de nosso humor, obstáculos que precisam ser contornados, frustrações e renúncias, medos, inseguranças e outras emoções difíceis.

Para iniciar construções de longo prazo, precisamos primeiro parar de fugir de sentimentos difíceis. Aprender a reconhece-los, entende-los e suporta-los, enquanto mantemos a direção escolhida. A escolha, aqui, é a palavra de ordem. A coerção ou controle externo exclui e impede a escolha. A decisão de parar com a fuga ou esquiva da experiência emocional é um caminho difícil, pois a sedução de caminhos conhecidos é grande e o alívio de curto prazo é poderoso. Antes de decidirmos caminhar em outra direção, precisamos reconhecer que nosso caminho até então não nos leva onde queremos. Precisamos aceitar que estamos desamparados e desesperançados em relação aos saberes que temos, aos recursos que temos. Precisamos entregar os pontos e escolher fazer diferente, parar de negociar com o antigo e se abrir para o ainda não conhecido. A psicoterapia está focada em construir uma escolha, com a ajuda de um terapeuta que conhece as armadilhas da coerção e da condução. O objetivo da escolha é alcançado com o reconhecimento de que as estratégias utilizadas nunca funcionaram, seus custos para valores fundamentais ao indivíduo são inaceitáveis, de que a aderência a estas estratégias só se justifica a partir de uma história em que soluções de curto prazo precisavam existir como soluções de sobrevivência em um contexto de ausência de ferramentas, recursos e entendimento.

Se alcançamos o ponto da escolha, partimos para a implementação de novas estratégias, agora voltadas para reconhecer, entender e aceitar que não podemos controlar nossos sentimentos, mas podemos controlar nossas ações. Se reconhecermos as armadilhas que construímos, se nos envolvermos em novas escolhas, se aceitarmos ajuda para nos fortalecer, se admitirmos que entramos em um novo processo, em que a experiência conta mais do que os resultados, em que o tempo de vida não é o tempo de nosso pensamento, poderemos ter sucesso na descoberta de um novo caminho. Certamente, nesse caminho obstáculos serão encontrados, novas vias terão que ser construídas, um mapa estará permanentemente em construção. Não teremos mapas prontos, mas teremos bússolas, que nos indicam a direção, sem a certeza do caminho. Assim, estar atento para as armadilhas, para as escolhas, para a sedução das estratégias antigas oferecendo soluções imediatas, é condição fundamental para essa nova aventura de liberdade e descoberta.

 

Maurício Canton Bastos

Psicoterapeuta Cognitivo-Comportamental

Doutor em Psicologia pela UFRJ

Diretor técnico CPAF – www.cpaf.com.br


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