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A Tecnologia Aplicada ao Tratamento dos Transtornos Ansiosos

O uso de tecnologias permaneceu afastado da psicoterapia desde seus primórdios. No entanto, atualmente, a tecnologia está cada vez mais presente na psicoterapia. Podemos destacar a utilização de testes neuropsicológicos computadorizados e instrumentos de reabilitação de memória e atenção cada vez mais presentes na prática clínica. O uso de programas de realidade virtual, especializados para o tratamento de fobias, vem sendo utilizado como instrumento psicoterápico já há algum tempo nos Estados Unidos e Europa.

O biofeedback é outro exemplo da aplicação da tecnologia como coadjuvante do tratamento psicoterápico. Abordaremos neste artigo a utilização do biofeedback como auxiliar no tratamento dos transtornos de ansiedade.

Sinteticamente, podemos dizer que o BF é uma técnica de auto-controle de respostas fisiológicas , na qual o cliente recebe informações sobre as atividades de seu organismo e aprende, mediante feedback apropriado e constante, a modificar uma ou mais de suas atividades fisiológicas. O termo BF foi definido por Blanchard & Epstain (1978) como: “um processo em que a pessoa aprende a influenciar confiavelmente respostas fisiológicas de dois tipos: respostas que normalmente estão sob controle voluntário e respostas que, normalmente, são facilmente reguladas (pelo organismo, automaticamente, n.t.), mas cuja regulação se tornou impossível devido a trauma ou doença.” Dessa forma, podemos verificar que o Sistema Nervoso Autônomo (SNA), normalmente considerado involuntário, pode ser operantemente condicionado por meio de feedback apropriado (Kaplan, 1988).

Através de um ou mais instrumentos, o sujeito recebe informação sobre suas funções autonômicas e aprende a controlar (mediante informações fornecidas por esses instrumentos) uma ou mais funções biológicas, que por ventura possam estar associadas aos sintomas. O cliente é colocado por um certo período de tempo em uma situação, onde pode perceber o traçado gráfico de alguma (s) função (ões) orgânica (as) e/ou o valor quantitativo da (s) mesma (s).

É importante deixar claro, que é por meio da retroalimentação que o sujeito terá a oportunidade de controlar gradualmente a (s) função (ões) orgânica (s) alvo (s), sendo que sem o auxílio de feedback tal controle seria dificultado (Gaarder & Montgomey, 1981, citados por Simon). Segundo Simon, o elemento chave imprescindível do processo é a informação direta (feedback), precisa e constante que o cliente recebe sobre a variável fisiológica de interesse.

O instrumento (tipo de equipamento) empregado depende do cliente, da(s) variável(is) fisiológica(s) em questão e do caso especificamente. Dentre os instrumentos disponíveis podemos citar alguns como: EMG (Eletromiograma), Galvanômetro, Termômetro, Eletrocardiograma e o EEG (Eletroencefalograma), sendo que o BF por EMG é um dos mais eficentes no Treinamento de relaxamento (Dilts, 1991).

Esquematicamente, podemos dizer que o BF envolve três operações: primeiramente, uma resposta fisiológica é detectada e amplificada por equipamento. Em segundo lugar, a resposta é processada. Finalmente, informações sobre a natureza da resposta são retroalimentadas ao cliente. Como foi explicado anteriomente, o sinal de feedback fornecido é usado para iniciar uma mudança e/ou controlar respostas fisiológicas (Adams, Iezzi, Kern, 1988).

A seguir abordaremos a aplicação do BF como técnica de relaxamento procurando, ao mesmo tempo, enumerar as vantagens dessa estratégia.

BIOFEEDBACK E ESTRATÉGIAS DE RELAXAMENTO

Em alguns casos o relaxamento pode ser uma das maiores metas a serem alcançadas, em um período pequeno de tratamento, ou pode fornecer um substrato psicofisiológico, que irá facilitar o emprego de outras técnicas terapêuticas. Assim, o relaxamento pode ser empregado como:

a) um precursor dos procedimentos da terapia tradicional, reponsável por facilitar a “livre associação”e a imaginação;
b) como um precursor para o treinamento e controle do SNA nas desordens psicossomáticas;
c) como uma resposta antagônica a ansiedade no tratamento de fobias usando a dessensibilização sistemática (Fair, 1989).

Podemos destacar o treinamento em relaxamento muscular profundo como uma das formas mais comuns de BF aplicado à psicoterapia (Fair,1989; Qualls e Sheehan, 1981; Stoyva, 1989 e Hurley & Meminger, 1992). O treinamento em BF possibilita que o terapeuta mensure o nível de relaxamento a partir das instruções fornecidas ao cliente. Por outro lado, caso o nível de tensão permaneça alto, o sinal de feedback pode ser e será utilizado para modelar a resposta na direção apropriada (Stoyva, 1989).

De acordo com a literatura, o BF pode ser empregado como técnica de relaxamento no tratamento da maior parte dos transtornos de ansiedade. Nesta técnica, o cliente aprende a relaxar com auxílio do sinal de feedback. Este sinal reforça a percepção de estar relaxado, possibilitando que o cliente alcance, com o decorrer do treinamento, estágios de relaxamento com maior facilidade e rapidez. Além disso, tais equipamentos ajudam o cliente a perceber as relações entre seus pensamentos e as respostas desencadeadas por esses em seu organismo, auxiliando no tratamento cognitivo do Transtorno do Pânico, por exemplo.

Em um programa típico de relaxamento, o BF é empregado em combinação com um grande número de outras técnicas cognitivo-comportamentais, incluindo até mesmo outros procedimentos de relaxamento como o Treinamento Autógeno e o Relaxamento Muscular Progressivo. O Relaxamento Muscular Progressivo em combinação com o BF pode, por exemplo, ajudar a determinar áreas (grupos musculares) onde o indivíduo possui maior dificuldade para relaxar. Neste caso, o BF pode ser aplicado para auxiliar o treinamento de relaxamento, permitindo ao cliente otimizar sua performance.

Um aspecto importante que constitui uma das vantagens no treinamento de relaxamento via BF, e que deve ser enfatizado, é tornar o sujeito consciente (por meio de feedback externo) dos sinais de alterações fisiológicas que sinalizam estados de tensão e de relaxamento. Ao longo do treinamento, o cliente vai aprendendo progressivamente, a focalizar e a discriminar sensações de relaxamento e tensão, ao mesmo tempo em que aprende a diferenciar e a lidar com esses estados.

Vale lembrar que a mensuração de parâmetros fisiológicos por si só constitui uma vantagem, uma vez que sem o monitoramento, fica difícil, tanto para o cliente, como para o terapeuta, avaliar objetivamente os progressos e as dificuldades existentes no treinamento de relaxamento. Com auxílio do BF, o cliente pode avaliar e checar seus progressos, ganhando, conseqüentemente, confiança em suas habilidades de relaxamento (Stoyva, 1989).

O BF é uma das novas estratégias para lidar com clientes que possuem dificuldade para aprender a relaxar. Terapeutas usuários de outras técnicas de relaxamento, normalmente, não tem outra saída a não ser aconselhar o sujeito com dificuldade para relaxar a continuar tentando e se exercitando. As estratégias de BF não apenas terminam com as fontes dos problemas de treinamento, como também abrem novas táticas de intervenção.

BIOFEEDBACK E PSICOTERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Muitas pessoas ficam surpresas com as mudanças que ocorrem no som e/ou imagem do equipamento de BF, no momento em que modificam seus pensamentos e/ou imagens mentais de natureza ansiogênica (Fair, 1989).

O papel da cognição e das diferentes estratégias cognitivas é discutido com o cliente nos estágios iniciais do treinamento. O efeito de diferentes tipos de imagens mentais e das diversas emoções pode ser facilmente demonstrado também com a utilização da eletromiografia (EMG), variação no ritmo cardíaco (ECG), da temperatura periférica (termômetro) além de outros procedimentos. Este tipo de estratégia pode ser de grande valia, como já dito, para o tratamento de alguns transtornos de ansiedade como o Transtorno do Pânico.

O Transtorno do Pânico se caracteriza por um forte ataque de ansiedade onde o paciente não consegue, a princípio, identificar causas razoáveis para sua produção. Em geral, a ausência de explicação promove nesses pacientes ainda maior confusão e estado de desamparo. De acordo com a terapia cognitiva, o que dispara o pânico são interpretações distorcidas sobre o significado de reações corporais geralmente ligadas a estados de ansiedade. Assim, a cognição aparece como um elemento central de manutenção e exacerbação da ansiedade.

A terapia cognitivo-comportamental busca permitir que o cliente perceba como suas cognições (interpretações da realidade, antecipações do futuro, memórias de situações difíceis, etc) afetam sua fisiologia. O uso do BF vem auxiliar esse empreendimento propiciando um contexto propício para o treinamento de respostas adequadas ao manejo das reações corporais juntamente ao manejo de cognições mais adaptativas.

O treinamento via BF ocorre de maneira gradual, através da fixação de metas explícitas e facilmente alcançáveis, tendo essas o papel de estimular e reforçar a aprendizagem. Conforme a facilidade do equipamento escolhido (relógios que oferecem medidas de pulso cardíaco), pode-se utilizar o BF até mesmo em situações fora do consultório, de maneira a produzir contextos reais para o treinamento de auto-controle.

Devemos observar que o BF é uma estratégia coadjuvante no tratamento psicoterápico. Pode torná-lo mais efetivo se utilizado de maneira apropriada e dentro de uma estratégia global de intervenção.

Autores

Mônica Portella & Maurício Canton Bastos

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